para escutar!

NIRVANA NO RIO DE JANEIRO 1993 – 23/01/1993 | análise do show

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O show do Nirvana no Rio de Janeiro ganhou pouco destaque nas matérias dos jornais cariocas na manhã do dia 23 de janeiro. O Alice in Chains era o mais lembrado da noite anterior do Hollywood Rock, mas quando o assunto era a outra banda de Seattle, a abordagem era diferente.

No canto inferior esquerdo da capa do O Globo, o título do Segundo Caderno nem citava as suas duas principais personagens. “Sid e Nancy versão grunge” era o título de uma matéria grande sobre o polêmico casal que passava a semana no Brasil. A matéria de duas páginas ainda continha uma entrevista exclusiva com Kurt Cobain, realizada durante aquela semana. A mídia só queria saber de cutucar a banda pelo show em São Paulo e de gerar fofocas.

Pré-Show

A semana do Nirvana no Rio de Janeiro

No Rio, as bandas do festival passariam a semana hospedadas no Hotel Intercontinental, em São Conrado. E durante ela, poderiam intercalar entrevistas com passeios turísticos e recreativos pela cidade maravilhosa.

Com o Nirvana não seria diferente, se não fosse uma briga entre Kurt e Courtney na primeira noite na capital carioca. Com ameaças de que iria se matar, Kurt teve que passar a noite em um hotel de apenas um andar. Com os ânimos alterados e energia recuperada na manhã seguinte, Kurt voltou ao luxuoso hotel.

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Para aproveitar aquela semana, o Nirvana reservou três dias um estúdio na zona sul do Rio, o BMG Ariola Ltda. Nessas datas, eles trabalhariam em algumas canções para o próximo disco, e que por sinal, já haviam sido tocadas no show em São Paulo.

Como as sessões só começavam a partir das 16 horas, os integrantes da banda tinham tempo de sobra para curtir umas pequenas férias. Dave Grohl encarou a bateria da Caprichosos de Pilares, na noite de sexta. “Ouvi outro dia andando pela praia. Não sei muito sobre o carnaval, mas essa batida é fantástica.” Na quadra, ele, com seus acompanhantes, ganharam cervejas e uma camisa da Ala dos Marajás, que prometeu usar no show do dia seguinte.

Já Kurt, aproveitou a manhã do dia 18 para subir a Pedra Bonita e se aventurar em um salto de asa delta pelo Parque Nacional da Floresta da Tijuca. As fotos desse dia são do arquivo pessoal de Craig Montgomery. Mas, uma outra foto acabou ganhando um destaque especial e fez parte do folheto de divulgação da Floresta Tour. Nele, Kurt é retratado como o popstar da banda Nirvana.

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Passagem de Som para o Show no Rio

Incríveis 10 minutos em vídeo da soundchek do Nirvana no Rio de Janeiro estão no YouTube. Nele, temos duas canções novas: “Scentless Apprentice” e, por incrível que pareça, “Gallons Of Rubbing Alcohol Flow Thorugh The Strip”.

A primeira já havia sido tocada em São Paulo, mas com nulo registro adequado da mesma. Aqui, a versão segue o modelo da que seria tocada naquela noite, mas o solo de guitarra é ensurdecedor! Engraçado é escutar os comentários em português de quem estava perto da câmera. “Uma merda”, “que coisa maravilhosa” e “meu filho toca melhor que eles”.

A segunda música é um prato único para quem é fã do Nirvana, afinal trata-se talvez da única música da banda que nunca foi tocada ao vivo. A canção, que mais parece uma jam session gravada no Rio de Janeiro, na verdade viria a ser a faixa-bônus das prensagens internacionais de In Utero. Abaixo, você pode conferir essa raridade.

O Show

Uma peculiar introdução com “L’Amour Est Un Oiseau Rebelle”, tema do musical Carmen, e o Nirvana começa um show com muito mais intensidade do que o primeiro realizado no festival.

O setlist repete a dose com “School” e “Drain You”, mas só conquista o público em “Breed”. Kurt parece estar seguro e se divertindo. Krist e Dave o acompanham e são puro bomba de energia. A performance é excelente. Já a sequente “Sliver”, parece a mesma da noite do Morumbi.

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Nirvana! Nirvana! Nirvana!!!

Os gritos de loucura da plateia voltam com os acordes iniciais de “In Bloom”. Dave é o coração da música e injeta uma força que a torna digna da euforia de quem está assistindo.

Euforia que faz a Praça da Apoteose tremer quando Cobain puxa “Come As You Are”. Ele, firme nos vocais, puxa um coro de milhares de vozes que pulam a música inteira. A banda se anima e entrega uma majestosa versão do segundo single de Nevermind, e talvez, maior sucesso da banda no Brasil.

Krist Novoselic mal termina uma piada sobre os perigos do tabagismo, quando a, incompreendida, multidão grita a todo volume “Nirvana! Nirvana! Nirvana!!!”. Sem graça, ele desiste e Kurt sugere que o povo quer que ele se cale.

Com direito a camisa da Ala dos Marajás sob a bateria de Grohl, a banda manda um enérgica versão de “Love Buzz”. Em sua segunda estrofe, Kurt tira um cigarro de seu bolso e esfumaceia os versos da canção. A atitude assusta os espectadores, mas que reage bem ao ver o ótimo empenho da banda.

Kurt toca “Possibilities”, do Viletones, seguido de Dave. Krist é quem assume os vocais. Cobain sorri pela primeira vez na noite. E testa o seu público, puxando-o para cantar “Lithium”.

Com certeza, esse é o melhor momento da noite. A canção ganha uma calorosa áurea que cirurgicamente une a energia da multidão com a da banda. Uma das melhores versões de “Lithium”. Novamente, a Apoteose grita: “Nirvana! Nirvana! Nirvana!!!”

Nirvana e os cigarros Hollywood

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Com o público ao seu lado, o Nirvana começa a aprontar das suas. Deduzindo que metade das pessoas não entenderão, os três integrantes começam a fazer piadas sobre a marca de cigarros Hollywood.

Grohl diz: “Kurt Cobain fuma cigarros Hollywood”. Kurt comenta que eles possuem um sabor refrescante. Já Krist, fala que não fuma, mas que se fumasse com certeza essa seria a sua marca. De fato, o público não parece entender.

E a situação piora quando eles começam a tocar “Polly”. Nela, Kurt improvisa alguns versos que até fazem Dave se perder na melodia de apoio. “Got to smoke Hollywood smoke and Hollywood smoke is a smoke and let me take a drag of your cigarette and makes other cigarette references” são as palavras do refrão. Grohl se diverte. A brincadeira seguiria ainda por “About A Girl”.

Parte da plateia parece não gostar, mas recua quando Flea é chamado para o palco. Com um pequeno duelo entre trompete e guitarra eles começam “Smells Like Teen Spirit”. A banda afinada só ganha com a ótima apresentação do baixista do RHCP. Ele segura a bronca e entrega dois excelentes solos. É incrível! Outra espantosa canção do show do Nirvana no Rio de Janeiro.

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Rio em Ré Bemol

O set segue para as canções com afinação mais baixa e Kurt perde um pouco a sintonia com a banda em “On A Plain”. Em compensação, “Negative Creep” faz até a mais distante pessoa pular. Krist e Dave mais uma vez excelentes, que emergem a energia de Cobain. Ele parece um pouco cansado, mas curtindo. E toca bem “Been A Son” e “Blew”. Ao final delas, Dave mostra sua bunda para a plateia.

As canções do In Utero

Com direito a transmissão ao vivo da Rede Globo, o show do Nirvana no Rio de Janeiro também teve as duas novas canções tocadas em São Paulo. Sem fazer qualquer menção, eles tocam “Heart-Shaped Box” (ainda “Heart-Shaped Coffin”) de forma empolgante. Mesmo que a letra não esteja concluída, a canção se mostra bem poderosa. E ouvi-la com seu solo barulhento original é uma realização única.

Novamente sem palavras, Dave começa o riff de “Scentless Apprentice”. Mais pesada que a sua versão final em In Utero, ela se torna um verdadeiro grito de dor e desespero de Cobain. Ele parece a ponto de explodir, mas ainda guarda muita energia. O ensurdecedor solo de guitarra mesclado em intermináveis flangers e microfonias são apenas o começo daquela que sera uma das performances mais marcantes da história do Brasil.

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Claramente fora de si, Kurt esfrega em sua Fender Jaguar um abacaxi jogado pela plateia e desce para a grade de proteção. O que pode ser considerada como uma anti-exibição de guitarras, muda de tom quando Cobain se dirige para as câmeras da rede Globo e dispara cusparadas em suas lentes. Uma imagem poderosa que literalmente mostra Kurt cuspindo na grande mídia que acaba com a sua vida.

Não satisfeito, ele dirige-se a outra câmera e começa a acariciá-la. Em seguida, tira a calça do seu pijama e simula uma masturbação exibida em rede nacional! Ele volta ao palco e eles terminam a canção. No final, Kurt agradece e se despede.

O Bis do Nirvana no Rio de Janeiro

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Depois de tudo aquilo, muita gente, ainda sem entender o que havia rolado, pensou que o show havia acabado. Alguns desesperados tiveram que voltar correndo quando Krist e Dave, agora de sutiã, voltaram para tocar uma jam de “Sweet Emotion”, do Aerosmith.

Na sequência, Kurt volta usando um vestido e uma coroa de Iemanjá. Krist brinca que ele está parecido com uma velinha da Playboy. Kurt diz que sua água está quebrando. Uma possível referência a uma água batizada. E que talvez seja a única explicação para sua energia durante as músicas finais do show.

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“Dive” talvez tenha tido sua melhor performance ao vivo. Tanto que sua versão está presente na fita oficial Live! Tonight! Sold Out!

Hit do Nevermind, “Lounge Act” recupera o público, que grita, pula junto e recebe uma ótima versão de “Aneurysm” (também presente no VHS citado). Um final digno de um épico concerto de rock. E, mesmo que os gritos finais de “Territorial Pissings” de fato encerraram o show, para Kurt não havia mais energia após aquele memorável bis. Restava a ele, apenas sair engatinhando do palco.

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Pós-Show

Após a longa semana no Brasil, o Nirvana voltaria para Seattle no dia seguinte. Como próximos passos, a banda iria trabalhar no material gravado no Rio de Janeiro e se preparar para a gravação do seu novo álbum.

Já no Brasil, as críticas em relação ao show também surgiram pelos lados da mídia carioca. Que também, reconheceu os momentos de atitude e de energia que levantaram a plateia em diversas partes do show. No mínimo, pode-se dizer que a performance do Nirvana no Rio de Janeiro foi emblemática.

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  • Nota: 5 estrelas / *****
  • O que eu mudaria: nada!

Setlist

L’Amour Est Un Oiseau Rebelle (jam) • School • Drain You • Breed • Sliver • In Bloom • Come As You Are • Love Buzz • Possibilities (jam) • Lithium • Polly • About A Girl • Smells Like Teen Spirit • On A Plain • Negative Creep • Been A Son • Blew • Heart-Shaped Box • Scentless Apprentice • Sweet Emotion (jam) • Dive • Lounge Act • Aneurysm • Territorial Pissings

Show em Vídeo

FONTES:
http://www.nirvanaguide.com/1993.php
https://www.livenirvana.com/tourhistory/reviews/93/01-23-93.php


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